O novo relatório do Reuters Institute for the Study of Journalism reforça algo que quem trabalha com comunicação digital já percebe na prática: os brasileiros estão prestando mais atenção em influenciadores do que em veículos de notícias nas redes sociais.
Segundo o estudo, uma parcela maior da população afirma acompanhar criadores de conteúdo para se informar do que marcas jornalísticas e jornalistas tradicionais em plataformas como YouTube, Instagram, TikTok e WhatsApp. Não se trata de um detalhe estatístico, mas de uma mudança clara no comportamento de consumo de notícias no Brasil.
Na prática, isso mostra que a informação deixou de circular apenas por logotipos e portais. Ela chega ao público principalmente por meio de pessoas. Perfis que têm rosto, linguagem própria, constância e uma relação direta com a audiência. É ali que se constrói confiança, identificação e hábito de consumo.
Enquanto muitos veículos ainda discutem formatos, frequência de postagem ou se devem ou não investir em determinadas redes sociais, influenciadores já entenderam o jogo. Eles produzem conteúdo nativo para cada plataforma, usam vídeos curtos, lives, cortes, humor e opinião, e marcam presença diária no feed das pessoas.
O relatório também evidencia um ponto sensível para o jornalismo: a polarização. As audiências seguem criadores que confirmam suas visões de mundo e raramente transitam entre campos ideológicos diferentes. Nesse cenário, influenciadores, políticos e comentaristas digitais acabam se tornando mediadores centrais da informação, muitas vezes com mais alcance do que as próprias redações.
Isso não significa que os veículos perderam relevância. A credibilidade do jornalismo profissional continua sendo um ativo fundamental. O que mudou é que a força da marca, sozinha, já não garante atenção nas redes sociais.
Hoje, atenção se constrói com linguagem acessível, narrativa clara, presença humana, consistência e adaptação real às plataformas digitais. Redes sociais não são mais apenas canais de distribuição de links. Elas se tornaram o principal ambiente de consumo de notícias, debate público e formação de opinião.
Para veículos de comunicação, o recado do relatório é direto: não basta estar nas redes sociais, é preciso entender como as pessoas consomem informação nelas. A pergunta não deveria ser como competir com influenciadores, mas como aprender com essa lógica sem abrir mão dos valores do jornalismo.
Os dados estão aí. E o comportamento do público também. Hoje, as pessoas querem informação, mas querem ouvir isso de pessoas, não apenas de logotipos.
Como alguém que atua com jornalismo digital, SEO, redes sociais e comunicação pública, especialmente fora dos grandes centros, vejo isso com muita clareza: quem não se adapta, desaparece do radar do público, mesmo fazendo um bom trabalho.
Não dá mais para pensar redes sociais só como “distribuição de link”. Elas viraram ambiente principal de consumo, debate e formação de opinião.

